
O conteúdo dos meus livros é constrangedor. Não é que sejam ruins, mas tocam em assuntos que não deveriam ser tocados. Antes de colar uns trechos nesta postagem preciso esclarecer uma situação sobre o Guindaste Metafórico e sobre minha atividade de escritor, em geral.
Minha intenção, escrevendo este livro, o primeiro que escrevi, foi completamente alienada. Eu não tinha nessa época menor condição de me comunicar. Como poderia escrever um livro?
Meus dois livros, também o Guindaste, são pura introspecção, o tipo mais inconsequente de introspecção. Até agora não tive muitos leitores e confesso que tenho algum receio de que isto possa acontecer. É como publicar a radiografia das próprias tripas.
É como espalhar pedaços do próprio cérebro no asfalto. Recomendo este livro aos meus inimigos, pois lendo-o fica muito fácil descobrir todas as minhas loucuras e defeitos. Também é uma leitura que pode ser recomendada a psiquiatras e pessoas que estudam deformidades do cérebro humano.
A verdade é que sempre tive a maior afeição pela tradição do lirismo. Todos esses artistas doidões que expuseram seus mais loucos e inaceitáveis sentimentos, sempre os amei. Nunca quis ser como eles, obviamente, sempre enxotados de suas famílias, arrastando trapos nas praias dos exílios, desertados de suas legiões, agarrados às suas garrafas de uísque, nunca os quis imitar. Que tipo de louco desejaria tal coisa?
O personagem Patrício Paternostro, idealizador do Guindaste Metafórico, é uma dessas almas perturbadas que não conseguem dizer, não conseguem se expressar, não conseguem alcançar o infinito.
Novela surrealista e criptograma para o futuro
O Guindaste é, em si, uma novelinha que faz um tipo de de “crítica” (que brega) a uma cultura que chamei recentemente de “apologia do estelionato”. Sim, a gente vive isso. O estelionato se tornou algo justificável. Praticar estelionato é mais justo que matar um frango. É a sobrevivência de cada um, afinal. Essa coisa de curso pra ganhar milhão, a gente sabe como é, isso virou uma espécie de commoditie. Eu acho que a autoajuda é a base teórica dessa imensa inversão de valores. É isto que o Pedro Rocha faz, este personagem mal representado pelo homem da capa do Guindaste. Ele é um mentiroso e um agressor. Um oportunista.
Escrevi essa história há uns anos. Na verdade o Guindaste ficou na gaveta, no Google Drive, por alguns anos até que eu decidisse transformá-lo em um livro.
O Guindaste Metafórico é a história da amizade entre um poeta louco e um autor de autoajuda. É um livro completamente xarope.
Não é um livro que me favorece, tampouco ele tenta ajudar o leitor. O Guindaste Metafórico é um texto quase beatnik. Creio que haja diversas camadas de significados e também profecias dentro do Guindaste. Este é seu encanto. É um livro para desocupados e corajosos, uma produção da PCBooks. Aqui vão alguns de seus parágrafos.
Alguns pedaços do Guindaste Metafórico:
Equilibrando um cabo de enxada no dedo indicador, na lavanderia de seu apartamento Pedro decidiria levar a sério a construção, em aço, vidro e concreto, do “ainda impossível” guindaste metafórico.
Pedro Rocha levaria uma fantasia às últimas
consequências. Fisgado pelo megalomaníaco projeto que encontraria nas entrelinhas de Patrício, o engenheiro interpretaria o papel do Comte. Rocha, personagem que subiria à altíssima cabine do guindaste metafórico quando este ficasse pronto para suspender o mundo.
Absorvido por essa loucura, o engenheiro
romancista passaria horas se olhando no espelho, de casaca e quepe, na figura pomposa de um militar de alta patente, batendo continência para o próprio reflexo.
O delírio do poder daria asas à sua imaginação. Na hora exata, puxando devagar o manche do guindaste, Pedro soltaria oitenta mil metros de corrente e arrastaria um formidável gancho inoxidável de nove mil toneladas pela Ásia Central, para pescar a brônzea alça incrustada no sopé dos Himalaias.
Com que coragem o Comte. Rocha salvaria o
mundo, sozinho na termosférica cabine do guindaste metafórico!
As consequências do ato seriam irreversíveis e repercutiriam em todo o universo, porque simplesmente possibilitariam o impossível.
Patrício Paternostro
O perfil de Patrício seria esse, o de alguém que se incomodaria com o próprio cérebro, como se entre seus neurônios doessem gases. Ou seja, Patrício que já seria meio doido ficaria ainda mais com a história da orelha
que não concluiria. Como poderia uma pessoa inteligente e criativa como ele não conseguir entregar dois parágrafos para a orelha de um romance? A vontade do tresloucado poeta seria a de cortar a orelha fora e entregá-la a Pedro, seu verdadeiro dono.
As justificativas de Patrício deixariam perplexo o próprio Salvador Dali. O engenheiro teria de escrever sua própria orelha, ele que teria recheado um miolo de
mentiras que mentisse na orelha também. Ninguém entenderia Patrício, completamente fora de si. O arquiteto desempregado teria contas a pagar, e nem mesmo o mais mole dos serviços conseguiria executar. Um caso óbvio de internação.
Assim o desmoralizado projetista destruiria os últimos fragmentos de sua própria imagem. Se um dia ele teve uma biografia a zelar, uma persona profissional para promover, agora não passaria de um mau exemplo para os
mais jovens. Ninguém iria querer trabalhar com Patrício. A história da orelha auto mutilada teria se espalhado pelos meios profissionais, fazendo com que sua má
reputação ficasse famosa. Todos saberiam que Patrício seria um bailarino frustrado que não conseguiria emprego como arquiteto e que teria surtado por causa de uma orelha.
Um garboso piloto de guindaste em sua farda militar
Piscando grandes olhos azuis Patrício responderia a Pedro que sim, que daquele jeito estaria bem, e desviando do irônico questionamento elogiaria de volta o visual militar do amigo, dizendo que Pedro estaria idêntico – esculpidos em carrara a cara e o focinho –, ao personagem do livro, o Comte. Rocha, que naquele momento estaria pronto para pôr seus pés no púlpito elevatório que o levaria aos limites quase exosféricos da atmosfera.
“Ainda bem, Pedro, que você se dispôs para subir à cabine do guindaste, porque eu nunca subiria lá. Nem de bicicleta eu saberia andar, imagine a caruara que me atacaria se eu estivesse sozinho com os dois pés na plataforma do púlpito elevatório!”
Pedro Rocha, que se teria auto coroado, desbravado seu próprio caminho e galgado os escalões de sua própria imaginação, com sincera arrogância lamentaria os parcos recursos psíquicos do colega beberrão.
“Isto realmente não é para você, meu caro! Fique na sua! Pilotar um guindaste metafórico me é uma possibilidade graças à minha genética pura, à minha predestinação e também aos pesados treinamentos militares que recebi na juventude. Você jamais teria condições de subir até a cabine.”

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