Joris Karl Huysmans
Capítulo II
Liduína nasceu na Holanda, em Schiedam, próximo a Haia, em um Domingo de Ramos, no dia seguinte à festa de Santa Gertrudes, no Ano do Senhor de 1380.
Seu pai, Pedro, ocupava o posto de vigia noturno na vila, e sua mãe, Petronília, vinha de Ketel, uma aldeia nos arredores de Schiedam. Os dois, ao que parece, vinham de famílias que viveram em alguma abundância e depois ficaram pobres. Os ancestrais de Pedro, que devem ter pertencido à nobreza, eram valorosos capitães, segundo Kempis. Não possuímos nenhum outro detalhe sobre suas linhagens. Os historiadores da santa falam apenas do pai de Pedro, Joanes, avô de Liduína, descrito como um homem religioso que rezava dia e noite, comia carne apenas aos domingos, jejuava duas vezes por semana e se contentava aos sábados com água e um pouco de pão. Ele perdeu sua mulher à idade de quarenta anos, e era obstinadamente atacado pelo Demônio. Em sua casa aconteceram todos os fenômenos típicos de uma casa mal assombrada, o Diabo a sacudiu de cima a baixo, perseguiu as empregadas, e quebrou uma vasilha sem que a manteiga dela caísse, como Gerlac especifica muito bizarramente.
Seu filho Pedro teve nove crianças com a mulher Petronília. Uma menina, Liduína, que era a quarta, e oito meninos, dentre os quais dois são mencionados pelos biógrafos. De um temos apenas o nome, Baudouin, mas o outro, Guilherme, aparece várias vezes na história da irmã. Este casou, teve uma filha a quem deu o nome de Petronília, como o da avó, e um menino a quem deu o nome do tio, Baudouin.
Se mencionarmos o primo Nicolas, que aparece duas vezes ao longo da história, e o escritor Gerlac, outro parente, que apesar de ser monge mora por um longo tempo na casa da santa − não sabemos o porquê −, teremos dado tudo que os antigos escritores nos contam sobre esta família.
No dia do nascimento de Liduína, sua mãe, que não pensava estar a ponto de parir, foi à Missa Solene, mas as dores vieram e ela teve de voltar correndo para casa. Lá deu à luz, no mesmo momento em que se cantava, na Igreja, a Paixão segundo São Mateus. O parto foi fácil e indolor, apesar de os filhos precedentes terem dado trabalho a ponto de ela quase morrer.
A criança recebeu na pia batismal o nome Lydwine, Lydwyd, Lydwich, Lidie ou Liduvine, um nome que, sob todas estas diferentes grafias e pronúncias, deriva da palavra flamenga “lyden”, que significa “sofrer”. Segundo Brugman, significa, na língua germânica, “grande paciência”.
Os biógrafos observam que a escolha de seu nome, como também o momento em que a pequena veio ao mundo, durante a festa, foram proféticos.
Tirando uma doença, da qual falaremos, não temos nenhum detalhe de sua infância digno de nota. Gerlac, Brugman e Kempis preenchem a lacuna com notas edificantes sobre a devoção da criança à abençoada Virgem de Schiedam, representada por uma estátua cuja história é a seguinte.

Pouco antes de Liduína nascer, um escultor, segundo Gerlac e Kempis, ou um comerciante, segundo Brugman, foi a Schiedam com uma Virgem de madeira que ele teria esculpido, ou comprado de um escultor, e intencionava vendê-la em uma feira que aconteceria na Antuérpia, na ocasião da Assunção. A estátua era bastante leve e um homem a podia facilmente carregar. Porém, quando foi colocada no barco que a levaria de uma cidade à outra ficou subitamente pesada, tanto que impediu que a embarcação saísse do porto. Mais de vinte marinheiros reuniram esforços para tirála da praia, enquanto o povo, que assistia ao espetáculo de cima do cais, zombava de sua fraqueza, não lhes poupando das vaias. Ofendidos e exaustos, desistiram, sem nunca terem passado por tal desventura, e questionaram se aquela imagem da Madonna não teria sido a origem do problema. De qualquer maneira eles queriam ir ao mar, e o comerciante, correndo o risco de ser jogado na água, teve de pegar a estátua, que imediatamente ficou leve em suas mãos. Ele tirou a Virgem do barco, e foi aclamado pela multidão enquanto o barco, então leve, tomava distância alegremente.
Todos acreditaram que a Virgem apenas teria agido desta forma porque queria ficar ali entre eles, e que, consequentemente, deveriam ficar com ela. Correram para chamar os padres da paróquia e os comerciantes, que se reuniram, compraram a estátua e a colocaram na igreja, onde fundaram uma confraria em sua honra.
Não é nada surpreendente que Liduína, certamente embalada com esta aventura desde a mais tenra idade, tenha amado rezar diante dessa estátua. Não podendo visitá-la à noite, quando de joelhos se cantavam cânticos e hinos diante de seu altar, ela dava um jeito de visitá-la durante o dia, não tão frequentemente quanto desejava, porque sua vida era ocupada.
Era mesmo. Aos sete anos ocupou o posto de ajudante na casa de sua mãe, raramente encontrava tempo para rezar e se recolher. Assim, nas manhãs em que Petronília lhe mandava para a escola com a refeição de seus irmãos, ela cumpria rapidamente a função e aproveitava o tempo para recitar uma Ave Maria na igreja. Certa vez, chegando atrasada, encontrou sua mãe aborrecida, lhe perguntando por qual caminho teria voltado, e ela ingenuamente respondeu:
“Não brigue comigo, mamãe, fui saudar Nossa Senhora, a Virgem, e ela me respondeu com um sorriso.”
Petronília ficou pensativa. Ela sabia que sua filha era incapaz de mentir, que sua alma era pura demais e que Deus a preservaria de ilusões, então resolveu parar. Ela se calou e passou a tolerar, sem fazer cara feia, seus pequenos atrasos.
Sua infância se passou assim, ajudando a mãe que, com oito crianças e com o pouco dinheiro que o trabalho de seu marido rendia, tinha muitas dificuldades para pagar as despesas da casa. Crescendo um pouco, ela se tornou uma hábil dona de casa, e aos doze anos uma menina séria que quase nunca participava das brincadeiras de seus amigos e vizinhos. Ela se recusava a participar das danças e das distrações, e na verdade apenas ficava satisfeita na solidão. Sem pressionar, sem explicitar seus movimentos, sem revelar sua linguagem interior e sem se mostrar, Deus ajustava um laço estreito, a deixando obscuramente entender que seria somente d’Ele.
Ela obedeceu sem compreender, sem nem mesmo suspeitar a vida de agonia que estava à sua frente, na qual deveria entrar em breve.

A claridade veio de vez, fulgurante, no dia em que os rapazes começaram a lhe propor o casamento. Ela era então graciosa e bem feita, dotada da especial beleza das loiras de Flandres, cujo charme estava principalmente na pureza dos traços, na doçura do sorriso, na expressão terna e compenetrada do olhar. Um dentre esses pretendentes tinha uma condição financeira e familiar muito superior à sua. Pedro, seu pai, não pôde deixar de ficar contente e de tentar fazer a filha tomar uma decisão. Entretanto, repentinamente, Liduína percebeu que deveria consagrar sua virgindade a Cristo, e recusou-se decididamente a ouvir seu pai, que ficou irritado e insistiu.
“Se você quiser me obrigar”, ela chorou, “pedirei a meu Salvador uma deformidade tão repulsiva que colocará todos esses pretendentes para correr!”
Pedro, que não gostava de admitir uma derrota, continuou a disputa, que a mãe interrompeu dizendo: “Veja, marido, ela é muito nova para pensar em casamento, e muito religiosa para que isto lhe convenha. Se ela quer se consagrar a Deus, que a ofereçamos, ao menos, de bom grado”.
Finalmente eles aceitaram sua vontade, porém ela permaneceu inquieta com sua própria beleza, e até que ficasse feia, como havia desejado, saía à rua apenas quando necessário. Ela compreendeu então que todo o amor dispensado a uma criatura é uma fraude cometida contra Deus, e suplicou a Jesus que a ajudasse a amar somente a Ele.
Em seguida Ele começou a cultivá-la, podando todos os pensamentos que poderiam desagradá-lo, lavrando sua alma, carpindo até o sangue. E fez mais. Como para confirmar a justeza das palavras, tão terríveis quanto consoladoras, de Santa Hildegarda – “Deus não habita em corpos saudáveis” –, Ele atacou sua saúde. A carne jovem e encantadora com a qual Ele havia lhe vestido, de repente o incomodou, e Ele a cortou em todas as direções, para que pudesse melhor extrair e moldar a alma que ela continha. Ele esticou este pobre corpo para dar-lhe a terrível capacidade de engolir todas as doenças da Terra, e de queimar na fornalha expiatória do suplício.
Chegando ao fim de seus quinze anos ela já não era a mesma. Logo em seguida Deus precipitou-se sobre sua presa como a águia do amor. A lenda, de Santo Isidoro de Sevilha e de Vicente de Beauvais, da águia que leva nas garras os filhotes, e voa com eles em direção ao Sol, lhes fazendo encarar o disco ardente, sem piscar, sob a pena de serem descartados, pode se verificar em Liduína. Ela encarou o sol da justiça sem piscar, e o símbolo de Jesus, pescador de almas, devolveu-a gentilmente ao ninho, onde sua alma cresceu e prosperou em uma casca de carne que estava destinada a se tornar, antes da sepultura, algo monstruoso e disforme.
Atrás dela, delineia-se um distante ascendente, a grande figura de Jó, chorando sobre o monturo. Ela é sua filha, e as mesmas cenas se reproduzem através das eras, dos confins de Edom às margens do Mosa. Cenas de sofrimentos irredutíveis, suportados com interminável paciência e agravados por discussões com amigos impiedosos e pelas reprovações de seu próprio povo. Há uma diferença, entretanto: as provações do patriarca tiveram fim enquanto ele ainda vivia, e as de sua descendente terminaram apenas com a morte.
Trad. Daniel Mendes
